Eu cá gosto de referendos, acredito que são a forma de representação democrática mais directa que possuímos, e por mim referendava-se tudo. Por exemplo, o orçamento de Estado, as políticas externas e internas, etc. Ia tudo a referendo, mas, infelizmente, isto não é possível e não se faz. Não se pode pedir a todas as pessoas que sejam versadas nos mais diversos assuntos. Mais ainda, não se pode pedir isto a um povo que na sua maioria não tem qualquer tipo de conhecimento acerca das mais variadas matérias. Assim, deixa de fazer sentido que a nossa governação, feita de nós e para nós, possa ser realizada constantemente através de sufrágio directo. Assim, o não fazer um referendo para tudo e por tudo, passa a ser uma coisa positiva. Delegamos a quem reconhecemos mais capacidades que nos governe, sem que percamos a nossa capacidade de nos governar também.
Não vivemos numa utopia, mas eu gostava. Gostava que fossemos um povo cheio de capacidades intelectuais e, acima de tudo, um povo cheio de percepções relativamente a este bicho humano que se deu a si direitos (e, por conseguinte, deveres) universais
(então não é que o tribunal europeu assinalou o nosso país, tão à beira mar plantado, como um dos que viola os direitos humanos exactamente devido a esta questão da não permissão da co-adopção) e gostava que fossemos um povo cheio de amor ao próximo e de (re)conhecimentos relativos à plena igualdade e liberdade que todos nós (a todos nós) nos dêmos, "só" por sermos humanos. Mas não, somos ainda um outro tipo de povo. E é esse povo que se vai manifestar acerca da co-adopção por parte de pessoas com uma característica sexual diferente (no sentido em que não é a norma, no sentido em que a norma é aquilo que é a maioria). Povo este que está cheio de pré-conceitos e preconceitos relativamente a essas pessoas. Povo este que não foi educado para isto, ou sequer consciencializado sobre o que se trata, tal como não é ainda educado para as outras matérias que não vão a referendo. Mas as pessoas, a norma destas, percebem o que está implícito no conceito de co-adopção? Não o terão como adopção? (Nem vou entrar na discussão da falha do direito à plena adopção). E porque é que não se pergunta, em vez de "Acha que os casais homossexuais têm direito a adoptar crianças? Ou à co-adopção ", se: "Acha que as crianças institucionalizadas têm direito a possuírem mais oportunidades de vida? Têm direito a terem mais oportunidades de serem integradas numa família?". Portanto, façam referendos, mas façam-no quando o povo for utópico.
Não queiram sacudir água do capote e atirar areia para os olhos do povo e, acima de tudo, não queiram minar a possibilidade de políticas futuras mais humanas.