Eu, fraco, me confesso: estou a pensar muito seriamente em sair mais depressa do call center do que entrei.
Eu sei que não posso mudar o mundo. Eu sei que a culpa não é minha. Eu sei que faço apenas o que me mandam e que não vale a pena stressar. Eu sei que as pessoas até podem não ficar com uma má impressão minha, mas sim da empresa. Mas a verdade é que já chorei por causa desta merda, mais do que uma vez. E se há coisa que eu não faço é chorar, fico feio.
Eu sei que não tenho de me preocupar, não me pagam para isso. Mas a verdade é que me custa imenso, sinto que estou a dar o meu nome e a minha voz para enganar pessoas. Deito-me a pensar nas pessoas e acordo a pensar nelas. Sinto-me stressado durante aquelas horas, uma tortura. Quero trabalhar, trabalhar a sério. Fazer as coisas como devem ser. Não quero andar a entupir um call center com trabalho desnecessário e clientes descontentes porque é tudo normal, não podemos mudar as coisas e depois habituamo-nos. Não me quero habituar. Custa-me imenso abandonar aquilo porque sinto que é uma falha. Que estou a falhar porque não aguentei trabalhar, na merda (pardon my french) daquele trabalho. É um trabalho num call center e acho que vou desistir daquilo e dedicar-me à tese que isso é que faço bem.
Ainda ouvi nos meus primeiros dias, quando disse à supervisora que nunca tinha trabalhado em call center: " a sério? Olha que não parece". Sinceramente, não me soou a elogio.
E eu que quando era miúdo queria era crescer e ser feliz.

